Abrir uma empresa nos Estados Unidos e se mudar para lá são dois processos diferentes. Muitos brasileiros descobrem isso depois de registrar a LLC: a empresa existe, tem EIN e conta bancária, mas o dono continua sem nenhum direito de morar ou trabalhar no país. Quem decide isso é o sistema de imigração, não o estado onde a empresa foi registrada.
Este guia é para o empreendedor que já tem (ou pretende ter) um negócio nos EUA e quer entender quais vistos existem para quem empreende: o que cada um exige, quanto tempo dura, se leva ao green card e quanto custa o pedido. Nenhum visto é garantido; o que segue explica as regras, e a estratégia do seu caso precisa de um advogado de imigração.
Resumo rápido
- Ter uma LLC não dá visto. A empresa é sua, mas trabalhar nela de dentro dos EUA exige um status migratório que permita isso.
- O B-1 serve para reuniões, não para trabalho. Você pode negociar contratos e visitar parceiros, mas não pode exercer emprego local.
- O E-2 depende da nacionalidade. Só pode pedir quem é nacional de um país com tratado de comércio e navegação com os EUA. Confira o seu país na tabela oficial do Departamento de Estado.
- L-1A e O-1A são vistos temporários de trabalho, cada um com uma lógica: o L-1A transfere um executivo de uma empresa estrangeira; o O-1A premia quem tem reconhecimento no topo da área.
- EB-2 NIW, EB-1A e EB-5 levam ao green card. Os dois primeiros dependem do seu currículo e do seu projeto; o EB-5 depende de um investimento mínimo de US$ 800.000 ou US$ 1.050.000.
- Advogado de imigração não é opcional. Um pedido mal montado pode ser negado e deixar um histórico que pesa nos próximos.
Primeiro: o que a LLC não faz
Uma LLC (Limited Liability Company, o tipo de empresa mais usado por não residentes) ou uma C-Corp é uma pessoa jurídica. Ela pode faturar, contratar, abrir conta e pagar impostos nos EUA. Mas ela não transfere ao sócio estrangeiro nenhum direito de residência, nem autorização para trabalhar dentro do país.
Você pode administrar a sua LLC do Brasil sem visto nenhum. A questão migratória começa quando você quer estar fisicamente nos EUA trabalhando no negócio.
A empresa em si pode ser aberta à distância, com um prestador como a Globalfy, que registra LLC ou C-Corp para não residentes. O passo a passo está no nosso guia de como abrir uma LLC nos EUA morando no Brasil. Este texto trata do outro lado: a pessoa.
O que você pode fazer como visitante (B-1/B-2)
O Brasil não faz parte do Visa Waiver Program, a lista de países cujos cidadãos entram nos EUA sem visto; a relação oficial está na página do programa no DHS. Por isso, o brasileiro que viaja a negócios usa o visto de visitante B-1/B-2: B-1 para negócios, B-2 para turismo.
Segundo a página da USCIS sobre o B-1, atividades permitidas incluem:
- conversar e se reunir com parceiros de negócio;
- participar de convenções e conferências profissionais ou de negócios em datas definidas;
- negociar contratos;
- resolver questões de um espólio;
- fazer treinamentos de curta duração.
O que não é permitido: emprego local ou “trabalho remunerado” nos EUA. A USCIS cita como exemplo de violação do status trabalhar para outro empregador no país. O período de permanência é definido na entrada e fica registrado no formulário I-94; para ficar além dessa data, é preciso pedir extensão no Form I-539 antes do vencimento.
Na prática, o B-1 serve para visitar fornecedores, fechar um contrato ou ir a uma feira, não para tocar a operação diária da empresa.

E-2: investidor por tratado
O E-2 é o visto que muita gente imagina quando pensa em “investir e morar nos EUA”. Segundo a página da USCIS sobre o E-2, o investidor precisa:
- ser nacional de um país com o qual os EUA mantêm um tratado de comércio e navegação;
- ter investido (ou estar investindo) um valor substancial de capital em uma empresa real nos EUA, com esse capital em risco;
- ter uma empresa que não seja marginal, ou seja, que não exista só para sustentar o investidor e a família;
- ter pelo menos 50% da empresa ou controle operacional dela;
- entrar nos EUA apenas para desenvolver e dirigir esse negócio.
A permanência inicial é de até dois anos, com prorrogações de até dois anos cada, sem limite de número. O E-2 é temporário e não leva diretamente ao green card.
Confira se o seu país está na lista
A lista oficial está na tabela de países com tratado do Departamento de Estado, que indica, país a país, se há tratado para E-1, E-2 ou ambos. Se você tiver mais de uma cidadania, confira cada uma delas antes de planejar o E-2.
L-1A: executivo de empresa brasileira abrindo escritório nos EUA
O L-1A é o caminho natural para quem já tem uma empresa ativa no Brasil e quer abrir uma filial, subsidiária ou afiliada nos EUA. Pela página da USCIS sobre o L-1A, os requisitos são:
- a empresa nos EUA precisa ter uma relação qualificada com a empresa estrangeira (matriz, filial, subsidiária ou afiliada) e as duas precisam estar efetivamente fazendo negócios;
- você precisa ter trabalhado para a empresa estrangeira por um ano contínuo nos últimos três anos;
- você vai atuar nos EUA como executivo ou gerente.
Regras para escritório novo
Quando o escritório americano ainda está começando, a USCIS exige, além do básico, que a empresa:
- já tenha garantido um espaço físico suficiente para o escritório;
- comprove que você atuou como executivo ou gerente por um ano contínuo nos três anos anteriores ao pedido;
- mostre que a operação nos EUA vai sustentar um cargo executivo ou gerencial em até um ano após a aprovação.
Nesse caso, a primeira autorização é de até um ano. Nos demais casos, de até três anos. As prorrogações são de até dois anos cada, com teto total de sete anos no L-1A.
Uma LLC sem empresa operando no Brasil por trás não serve para o L-1A. O visto também conversa com o green card: a categoria EB-1C, para gerentes e executivos multinacionais, exige que o empregador americano faça negócios há pelo menos um ano, segundo a página da USCIS sobre o EB-1, e dispensa a labor certification (o processo no Departamento do Trabalho que comprova falta de trabalhadores americanos para a vaga).
O-1A: habilidade extraordinária
O O-1A é para quem tem habilidade extraordinária em ciências, educação, negócios ou esportes. Segundo a página da USCIS sobre o O-1, é preciso mostrar reconhecimento nacional ou internacional sustentado e estar entre a pequena parcela que chegou ao topo da área.
O USCIS Policy Manual aceita um grande prêmio internacional ou pelo menos três de oito critérios:
- prêmios nacionais ou internacionais de excelência na área;
- participação em associações que exigem realizações de destaque;
- matérias sobre você em publicações profissionais ou grande imprensa;
- atuação como avaliador do trabalho de outras pessoas;
- contribuições originais de grande importância;
- autoria de artigos acadêmicos ou em grandes veículos;
- papel crítico ou essencial em organizações de reputação reconhecida;
- remuneração alta em relação à área.
Cumprir três critérios é só a porta de entrada: o oficial ainda avalia o conjunto das provas. O pedido é feito por um empregador americano ou por um agente nos EUA, no Form I-129, com uma carta de opinião de um grupo de pares ou especialista da área. A primeira autorização é de até três anos, com extensões de até um ano.
O O-1A não leva diretamente ao green card, mas as mesmas provas costumam ser a base de um pedido EB-1A.

EB-2 NIW: green card pelo interesse nacional
O EB-2 é uma categoria de green card para profissionais com grau avançado (mestrado ou superior, ou bacharelado mais cinco anos de experiência progressiva) ou com habilidade excepcional (três de seis critérios, como diploma, dez anos de experiência, licença, remuneração, associação profissional ou reconhecimento). Em geral, exige oferta de emprego e labor certification.
O NIW (National Interest Waiver) dispensa essas duas exigências. Por isso é popular entre empreendedores: você pode fazer o pedido para si mesmo, no Form I-140, sem empregador. A página da USCIS sobre o EB-2 e o Policy Manual aplicam os três critérios de Matter of Dhanasar:
- Mérito substancial e importância nacional. O projeto (não a profissão em geral) precisa ter impacto além de um único empregador, em áreas como negócios, ciência, tecnologia, saúde ou educação.
- Você está bem posicionado para levar o projeto adiante. Contam formação, histórico, plano detalhado, progresso até agora e interesse de clientes ou investidores.
- No balanço, vale a pena dispensar a oferta de emprego. Os benefícios do seu trabalho precisam pesar mais do que a proteção que a labor certification daria ao mercado americano.
Para empreendedores, o Policy Manual cita provas como investimento externo, aceleradora, subsídios governamentais, propriedade intelectual, imprensa, crescimento de receita e cartas de terceiros. E avisa: frases genéricas sobre gerar empregos não bastam, e ser dono da empresa raramente é suficiente.
EB-1A: habilidade extraordinária para green card
O EB-1A é o equivalente, em green card, ao O-1A, com uma barra ainda mais alta. A página da USCIS sobre o EB-1 aceita uma grande conquista internacional ou três de dez critérios (os mesmos do O-1A, mais exposições do trabalho e sucesso comercial em artes cênicas). Você pode fazer o pedido para si mesmo no Form I-140, sem oferta de emprego nem labor certification.
EB-5: green card por investimento
O EB-5 é o único caminho em que o investimento financeiro é o requisito central. Pela página da USCIS sobre a classificação EB-5, para pedidos protocolados a partir de 15 de março de 2022:
- o investimento mínimo é de US$ 1.050.000;
- em uma área de emprego-alvo (TEA, regiões rurais ou com desemprego alto) ou em projeto de infraestrutura, o mínimo é de US$ 800.000;
- o investimento precisa criar pelo menos 10 empregos em tempo integral para trabalhadores qualificados.
Atenção ao calendário: a USCIS informa que esses valores serão corrigidos pela inflação para pedidos protocolados a partir de 1º de janeiro de 2027, e depois a cada cinco anos. Se você está planejando um EB-5, confirme o valor em vigor na data do seu protocolo.
O pedido é feito no Form I-526 (investimento direto) ou I-526E (via regional center). O green card inicial é condicional: segundo a página do Form I-829, ele vence no segundo aniversário da residência condicional, e você precisa pedir a remoção das condições nos 90 dias anteriores a essa data.
Comparativo dos vistos
| Visto | Para quem | Requisito central | Duração | Leva a green card? |
|---|---|---|---|---|
| B-1/B-2 | Visitante a negócios ou turismo | Não exercer emprego nos EUA | Definida na entrada (I-94) | Não |
| E-2 | Investidor de país com tratado | Investimento substancial e 50% da empresa | 2 anos por entrada, prorrogável | Não diretamente |
| L-1A | Executivo de empresa estrangeira | 1 ano na empresa no exterior; relação entre empresas | 1 ano (escritório novo) ou 3; máximo 7 | Pode, via EB-1C |
| O-1A | Quem está no topo da área | Prêmio maior ou 3 de 8 critérios | Até 3 anos; extensões de 1 ano | Não diretamente |
| EB-2 NIW | Grau avançado ou habilidade excepcional | 3 critérios de Dhanasar | Permanente | Sim |
| EB-1A | Reconhecimento extraordinário | Grande conquista ou 3 de 10 critérios | Permanente | Sim |
| EB-5 | Investidor | US$ 800 mil ou US$ 1,05 milhão e 10 empregos | Condicional por 2 anos, depois permanente | Sim |
Quanto custa protocolar na USCIS
Os valores abaixo são da tabela de taxas G-1055 da USCIS, edição de 26 de outubro de 2026. Eles cobrem só as taxas do governo; honorários de advogado, traduções e taxas consulares são à parte.
| Formulário | Uso | Taxa (papel / online) |
|---|---|---|
| I-129 (E) | E-2 para quem já está nos EUA | US$ 1.015 / US$ 965 |
| I-129 (L) | L-1A | US$ 1.385 / US$ 1.335 |
| I-129 (O) | O-1A | US$ 1.055 / US$ 1.005 |
| I-140 | EB-2 NIW e EB-1A | US$ 715 / US$ 665 |
| I-526 / I-526E | EB-5 | US$ 3.675 |
| I-907 | Processamento premium (I-129 E, L, O e I-140 EB-1/EB-2) | US$ 2.965 |
Há taxas adicionais que muita gente esquece:
- Asylum Program Fee, cobrada no I-129 e no I-140: US$ 600 para o peticionário comum, US$ 300 para pequeno empregador (e, no I-140, para quem faz o pedido para si mesmo) e zero para entidades sem fins lucrativos.
- Taxa antifraude de US$ 500 em pedidos iniciais de L-1.
- Taxa de US$ 1.000 do EB-5 Reform and Integrity Act no I-526E inicial.
- Pequenos empregadores e entidades sem fins lucrativos pagam valores reduzidos no I-129 (por exemplo, US$ 695 no L e US$ 530 no O).
Taxa errada faz o pedido ser rejeitado. Antes de pagar, confira o valor no Fee Calculator da USCIS.

Como escolher o caminho
- Empresa ativa no Brasil há mais de um ano, com você na direção: L-1A.
- Cidadania de um país com tratado E-2 e capital para investir: E-2.
- Prêmios, imprensa, cargos de destaque ou remuneração alta: O-1A e EB-1A.
- Mestrado (ou bacharelado com cinco anos de experiência) e um projeto com impacto claro nos EUA: EB-2 NIW.
- Pelo menos US$ 800 mil para investir, aceitando o risco: EB-5.
Muitos empreendedores combinam caminhos: entram com um visto temporário (L-1A ou O-1A) e, em paralelo, montam um pedido de green card (EB-1C, EB-1A ou NIW).
Erros comuns
- Trabalhar no negócio com visto B-1. Reuniões e negociações são permitidas; tocar a operação do dia a dia, não.
- Planejar um E-2 sem conferir a tabela de países. O visto só vale para nacionais de países com tratado, e a tabela do Departamento de Estado é a fonte oficial.
- Abrir só uma LLC nos EUA e pedir L-1A. O visto depende de uma empresa estrangeira real e de um ano seu trabalhando nela.
- Montar um NIW com frases genéricas. O Policy Manual diz que afirmações amplas sobre gerar empregos não bastam.
- Usar a taxa ou o valor antigo. Taxas da USCIS mudam, e os valores do EB-5 serão corrigidos a partir de 1º de janeiro de 2027.
- Fazer tudo sem advogado. Um pedido negado fica no seu histórico migratório.
Perguntas frequentes
Abrir uma LLC nos EUA me dá visto ou green card?
Não. A LLC é uma empresa americana, mas ela não dá ao dono estrangeiro nenhum direito de morar ou trabalhar nos EUA. Você pode administrá-la do Brasil sem visto; para trabalhar nela de dentro dos EUA, precisa de um visto que permita isso, como E-2, L-1A ou O-1A, ou de um green card.
Posso trabalhar na minha empresa americana com visto de turista ou B-1?
Não. O B-1 permite atividades como reuniões com parceiros, conferências, negociação de contratos e treinamentos curtos. Segundo a USCIS, emprego local ou trabalho remunerado nos EUA não é permitido nesse status.
Brasileiro pode tirar o visto E-2?
Depende da nacionalidade. O E-2 só vale para nacionais de países com tratado de comércio e navegação com os EUA. Confira a sua nacionalidade, e qualquer outra cidadania que você tenha, na tabela de países do Departamento de Estado antes de planejar o visto.
Qual visto serve para quem tem empresa no Brasil e quer abrir filial nos EUA?
O L-1A é feito para isso. Você precisa ter trabalhado na empresa brasileira por um ano contínuo nos últimos três anos, e a empresa americana precisa ter relação qualificada com ela. No caso de escritório novo, a primeira autorização é de até um ano e a empresa precisa mostrar espaço físico e capacidade de sustentar um cargo executivo em até um ano.
O que é o EB-2 NIW e preciso de empregador?
É um green card na categoria EB-2 em que a oferta de emprego e a labor certification são dispensadas por interesse nacional. Você pode fazer o pedido para si mesmo no Form I-140. É preciso ter grau avançado ou habilidade excepcional e cumprir os três critérios de Matter of Dhanasar.
Quanto é o investimento mínimo do EB-5?
Para pedidos protocolados a partir de 15 de março de 2022, US$ 1.050.000, ou US$ 800.000 em área de emprego-alvo ou projeto de infraestrutura, com criação de pelo menos 10 empregos. A USCIS informa que os valores serão corrigidos para pedidos protocolados a partir de 1º de janeiro de 2027.
Quanto custa a taxa do Form I-140?
Pela tabela G-1055 da USCIS de 26 de outubro de 2026, US$ 715 em papel ou US$ 665 online, mais a Asylum Program Fee, que é de US$ 300 para quem faz o pedido para si mesmo. O processamento premium, quando disponível, custa US$ 2.965 a mais.
Próximos passos
Cada um desses caminhos exige provas, planejamento e, quase sempre, um advogado de imigração; confirme o seu caso com ele e com um contador nos dois países antes de investir ou de se mudar. Enquanto isso, você pode adiantar a parte empresarial: veja como abrir uma LLC nos EUA morando no Brasil, entenda quando faz sentido um Delaware flip para uma holding americana e consulte o glossário Brasil–EUA para empreendedores sempre que um termo travar a leitura.



